Mostrando postagens com marcador opiniao. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador opiniao. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Os donos da rua


Diante da insuficiência do poder público em sanar as mazelas da sociedade e da insegurança demasiada nas grandes e médias cidades, a população ficou refém dos problemas sociais urbanos. O simples ato de sair de casa, seja para se divertir, trabalhar ou estudar, por exemplo, tornou-se uma tarefa crítica. 



Estacionar o carro ficou complicado na rotina da população, tornou-se um mercado  lucrativo e acirrado entre os guardadores clandestinos de veículos, os famosos flanelinhas. A classe passou a dominar e comandar a rua - um local público - como se fossem os verdadeiros “donos do pedaço”. O motorista, intimidado pela presença desses “profissionais” e com medo se ter seu carro danificado ou até ser vítima de agressões físicas, se vê obrigado a pagar por um falso serviço. Na ficha criminal de muitos guardadores conta práticas de delitos como furto, roubo, agressão e até homicídio.  

No Brasil, a Lei 6.242, do ano de 1975, aprovada pelo então presidente do país, Ernesto Geisel, regulamenta a atividade de guardador de carro. No entanto, a função não é legalizada e pode ser considerada crime. Ainda de acordo com a lei brasileira, e apesar de algumas contestações, o ato de pedir dinheiro ao motorista pode ser qualificado como extorsão - a intimidação com o intuito de alguma vantagem econômica indevida -, contravenção - o exercício ilegal da profissão -, formação de quadrilha e loteamento de espaço público. O acusado pode pagar pena de três meses a um ano, podendo ser estendida para até quatro anos.



O trabalho da polícia para conter e coibir tal prática ainda é escasso e ineficaz. A falta de leis que criminalizem a atuação dos flanelinhas permite a perpetuação do ato. “Podem prender os guardadores, mas eles vão voltar para trabalhar nas ruas”, disse Marinaldo Oliveira, presidente do Sindicato dos Guardadores e Lavadores Autônomos de Veículos de São Paulo (Sindiglaasp), em operação do Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC), que deteve, no mês de maio, 53 flanelinhas nas imediações do Estádio do Pacaembu, em São Paulo.

Não sou motorista, nem vítima dos flanelinhas, mas isso não me faz um cidadão menos indignado diante da atuação dos mesmos. É intolerável perceber que a população ainda é vítima desses bandidos camuflados de “guardadores de carro”. A segurança do povo e dos seus bens materiais em ambiente públicos é de responsabilidade do poder governamental, que mesmo ciente do problema, não toma uma decisão agressiva, definitiva e eficaz. 


quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Série “O Mensalão”: Capítulo 02



Não é nada fácil falar para esse brasileiro esquecido, é necessário que se abra aquela agenda de anotações largada no fundo da gaveta. O brasileiro esquecido é o mesmo que sabe dos últimos acontecimentos na novela das 21h, mas não lembra se quer dos principais nomes envolvidos com o Mensalão. 
Há mais de um mês acontece o julgamento do mensalão, o caso mais importante da história do STF. No entanto não parece ser tão importante para a maioria da população, ele corre solto e sem a devida atenção. A verdade é que o episódio do Mensalão não é um acontecimento a altura para mudar o descaso da política no Brasil. Será apenas mais um registro histórico do casamento entre política e corrupção. Alguém pensa diferente? 

(Eu sinceramente sonho com o dia em que os jovens desse Brasil serão menos banais e passarão a ser mais interessados em mudar o contexto político da nossa nação).

Quando foi escolhido para a relatoria da CPI dos Correios, em 2005, o deputado Osmar Serraglio disse que uma das principais dificuldades era receber material dos setores alvo de investigação, tendo seu trabalho dificultado (um verdadeiro absurdo). Ele completa dizendo: “Não admito que se diga que o mensalão não existiu”. De fato, negar o mensalão é uma afronta à inteligência do brasileiro que se interessa pelo assunto e quer justiça. Que o diga o ex-presidente Lula, que em entrevista ao ‘The New York Times’, disse que o Mensalão não existiu. Segundo ele, o governo não precisava comprar votos, pois, já tinha maioria no Congresso Nacional. Realmente, alguns políticos tem uma grande capacidade de convencimento. 


Mas, parece que Lula também entrou na lista dos brasileiros esquecidos, pois, no dia 12 de Agosto de 2005, quando a pressão do escândalo era grande, o então Presidente usou a rede nacional para fazer um pronunciamento e se desculpar do que acontecera. Vejam o vídeo e atentem para a frase: “Em 1980, no início da redemocratização, decidi criar um partido novo que viesse para mudar as práticas políticas, moralizá-las e tornar cada vez mais limpa a disputa eleitoral no nosso país”.

A retomada do assunto... 

A retomada do assunto ‘Mensalão’ veio por conta do julgamento, que começou no dia 02 de Agosto de 2012, no Supremo Tribunal Federal (STF), onde, na ocasião, foi feita a leitura de um histórico sobre o caso baseado no relatório do Ministro Joaquim Barbosa, que lembrou as acusações que pesam sobre cada réu e como o STF se posicionou em 2007, quando decidiu abrir a ação penal. 
Joaquim Barbosa fez uma apresentação resumida do relatório de 122 páginas elaborada por ele no final do ano passado, e aprovado pelo revisor Ricardo Lewandowski. A íntegra do relatório pode ser conferida no site do STF.

Continua... 



segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Propagandas de bebidas alcoólicas: legalmente ilegais


Desde 2000, devido à aprovação pela Câmara dos Deputados do Projeto de Lei 3.156, está proibida a propaganda de cigarro em rádio, televisão, jornais e revistas, e o patrocínio de marcas do produto em eventos culturais e esportivos. Ótima notícia! No entanto, propagandas de bebidas alcoólicas, principalmente a cerveja, continuam a ser exibidas pelos meios de comunicação de massa.


A indústria de bebidas no Brasil fatura mais de R$ 20 bilhões por ano e, segundo análise de 2008, por volta de 1 bilhão de reais/ano são gastos pelo mercado publicitário do ramo. Com uma linguagem atraente e atual, utilizando elementos como a sensualidade das mulheres brasileiras e o futebol, os anúncios sempre estão associados à descontração e divertimento, e passam a mensagem de que as bebidas alcoólicas tornam a vida melhor, ou mais agradável. 

O objetivo primordial é ganhar a atenção de jovens em fase de formação de caráter e personalidade. “A publicidade de bebida bate pesado justamente nessa população. E a gente sabe que o adolescente é vulnerável a essa influência. Existe uma crença generalizada de que o álcool é uma substância inócua porque é legal”, alerta o psiquiatra Dartiu Xavier. 

Quase metade da população do país não consome álcool, número que soa positivamente se compararmos com países como Alemanha e Inglaterra, onde o consumo passa dos 90%. No outro lado da moeda, isso significa uma grande parcela da população ainda suscetível à conquista das propagandas de bebidas alcoólicas, que, evidentemente, não evidenciam os danos consequentes do seu uso.



De acordo com relatório da OMS (Organização Mundial da Saúde), de 2011, o álcool é responsável por 4% de todas as mortes do mundo. A maior parte delas em pessoas entre 25 e 39 anos. Ele está diretamente atrelado a doenças, como câncer e cirrose, dependência, violência doméstica e acidentes de trânsito, por exemplo. Seu consumo coloca não só em risco a vida de quem as consome como também de outras pessoas. 

Depois de mais de 10 anos após a proibição das propagandas de cigarro nos veículos de massa, seu uso foi reduzido praticamente pela metade. Percebemos, então, que a proibição dos anúncios, principalmente na TV, de produtos derivados do álcool, é a solução mais sensata para alguns problemas de saúde pública do Brasil e de danos à vida social de seus usuários, muitos deles adolescentes. Só resta esperar que tal atitude seja tomada sem demora e independentemente do lobby dos magnatas da indústria e da propaganda de bebidas alcoolicas.

Vale ressaltar que atreladas à proibição, campanhas de conscientização e educação familiar também são de extrema importância.


quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Série “O Mensalão”: Capítulo 01



O esquema de compras de votos dos parlamentares, ou popularmente conhecido como Mensalão, é o nome dado à maior crise política sofrida pelo governo Lula (PT) em 2005/2006.

O Mensalão veio à tona no dia 14 de maio de 2005, quando a imprensa divulgou uma gravação em que Maurício Marinho, então chefe de departamento nos Correios, aparece recebendo propina de empresários em nome do Presidente do PTB, Roberto Jefferson. Na realidade, não existia empresário algum, e sim, o advogado Joel Santos Filho, o denunciante da corrupção, que se fez passar por empresário para colher provas do crime do mensalão. Maurício Marinho, por sua vez, ‘pobre inocente’, sem saber que estava sendo gravado, expôs todo o esquema de corrupção dos agentes públicos dos Correios. 

A revista VEJA, com a capa “O vídeo da Corrupção em Brasília”, edição de 18 de Maio de 2005, mostra o total envolvimento de Roberto Jefferson, a matéria “O homem-chave do PTB” traz a denúncia do esquema de corrupção na Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, tal esquema supostamente gerido pelo diretor de Administração dos Correios, Antônio Osório Batista e Roberto Jefferson, antes aliado do governo.


Roberto Jefferson ‘triste e sentindo-se abandonado pelos seus ex-aliados’, revelou em entrevista a Folha de S. Paulo a existência de um esquema de pagamento de propina a deputados da base aliada, conhecido como mensalão. Jefferson contou ainda que Delúbio Soares, tesoureiro do PT, pagava uma pequena mensalidade de R$30 Mil a alguns deputados do Congresso Nacional para que eles votassem a favor de projetos de interesse do Poder Executivo (Não do povo). Não podemos esquecer-nos do operador do Mensalão, o empresário Marcos Valério de Souza. Foi exposta ali a maior e a mais bem organizada quadrilha já descoberta agindo na estrutura de governo. Sim, existem ladrões de paletó e gravata, tão piores quanto os encarcerados pelo Brasil a fora.

Entre os 40 acusados, nove tinham posição de destaque no PT; Em depoimento à CPI dos Correios, cuja instalação o governo tentou impedir, Renilda Santiago Fernandes de Souza, mulher de Marcos Valério, o operador do esquema, disse que o então Ministro da Casa Civil, José Dirceu, não só sabia de tudo como ainda se reuniu com representantes dos bancos envolvidos no caso, Rural e BMG, para tratar do assunto. O ex-presidente Lula então se viu obrigado a demitir Dirceu. O ex-presidente sempre alegou não saber do que se passava nos corredores do Planalto. Será mesmo?


Vários deputados foram julgados pelo Conselho de Ética da Câmara Federal, mas, apenas José Dirceu e Roberto Jefferson perderam seus mandatos e ficaram inelegíveis por 10 anos.
É difícil acreditar no Brasil do ‘futuro’, onde os políticos sempre levam a melhor, como por exemplo, José Dirceu que sempre está passeando pelo Palácio do Planalto (ele adora um holofote). O pobre povo sempre fica à toa. Digamos NÃO aos usurpadores da nação.

Continua...


terça-feira, 11 de setembro de 2012

Quanto vale a sua fé?


Aos religiosos de plantão, peço desculpas pela blasfêmia proferida na imagem acima, mas é essa a impressão que tenho, seja nas próprias igrejas, ou mesmo na televisão, vemos e ouvimos constantemente campanhas e empreitadas em prol do dinheiro. O culto deixou de ser um ato de fé e tornou-se marca do mercado financeiro. 

Tenho conhecimento da importância do dízimo e da oferta para a manutenção e para as atividades das igrejas, porém a fé virou mercadoria, objeto de lucro e proveito. As palavras sagradas tornaram-se fonte fácil e rápida de renda. Em cada esquina tem uma igreja a sua espera. 

“Trazei todos os dízimos à casa do tesouro, para que haja mantimento na minha casa, e depois fazei prova de mim nisto, diz o SENHOR dos Exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu, e não derramar sobre vós uma bênção tal até que não haja lugar suficiente para a recolherdes.” (Malaquias 3:10)

As palavras acima são levadas “a ferro e ferro” até demais. Para se ter uma ideia, um estudo de 2009 revelou que igrejas católicas e evangélicas somam lucro mensal de quase 2 bilhões de reais. Três anos depois esse número evidentemente aumentou substancialmente. 

Valdemiro Santiago: apóstolo e líder da igreja Mundial; Edir Macedo: bispo, líder da igreja Universal do Reino de Deus e dono da Rede Record; Silas Malafaia: líder religioso; e R.R.Soares: líder da Igreja Internacional da Graça. Todos eles passam algum tempo divulgando suas pregações e pedindo sua ajuda na TV.
Outro bom exemplo é o missionário R.R. Soares e sua Igreja Internacional da Graça, figurinhas carimbadas do horário nobre da TV. De acordo com o site F5, estima-se que R$ 5 milhões sejam desembolsados todo mês por meia horinha na tela da Band. Nove entre dez emissoras de TV exibem algum tipo de conteúdo religioso durante sua programação habitual. É só ligar o aparelho que lá está alguém evangelizando e pedindo sua doação.

Mas esse assunto não é algo novo. Vivemos algo similar, ou de total igualdade, na idade média, com o pagamento de indulgências. Algo mudou? Os cristãos ainda dão a sua contribuição, muitas vezes exagerada, na certeza que estão garantindo o seu “pedaço de terra” no céu. Mas, se há alguma moeda que possa comprar esse espaço celestial com certeza ela não é feita de metal, mas de boas ações.  

Grandes e luxuosos templos construídos com essas arrecadações colocam em xeque a moral e todo o fervor religioso desses líderes cristãos e suas respectivas instituições. O maior problema, creio, é o destino de todo esse dinheiro. Para onde, ou quem, vai? Pensemos que a contribuição do fiel é necessária e deve ser respeitada.  Assim como em qualquer lugar, ainda existe honestidade nesse meio e a generalização da falta de integridade de todos seria equivocada, bem como acreditar que tudo é revertido em obras de caridade seria ingenuidade. Mas aí vai do senso crítico – e fé – de cada um. 

O valor da sua fé eu não sei dizer, mas que ela vale muito eu tenho certeza. 


terça-feira, 4 de setembro de 2012

A pele que habita não é sua!

Imagem extraída do documentário Earthlings e adaptada


Depois de aparecer na Bulgária exibindo um exuberante casaco de pele, a cantora Lady Gaga reascende a polêmica do uso da pele de animais na moda. Em 2010, a estrela já havia abordado o assunto no programa da apresentadora Ellen DeGeneres: “Eu odeio pele e não as uso.”.

Dois anos depois, durante a passagem da sua turnê pelo país europeu, a cantora tornou-se alvo de críticas de membros da PETA (Pessoas pelo Tratamento Ético dos Animais), uma das maiores entidade no que diz respeito ao combate de maus tratos contra animais, por causa do uso da peça. Com tom irônico, ela rebateu: “Para aqueles da imprensa que estão escrevendo a respeito da minha pele ser ou não real, por favor, não esqueçam de creditar o designer Hermes. Obrigada!”. Pouco tempo depois, Lady Gaga ainda expôs na sua rede social (LittleMonsters.com)  sua opinião sobre o tema, o que acabou gerando ainda mais polêmica e controvérsia.

Lady Gaga usa pele de animal na Bulgária (13/08)
Artistas como ela, de grande repercussão e formadores de opinião, devem ter cautela com algumas das suas atitudes. Sou totalmente a favor que possamos fazer e/ou falar o que quisermos, desde que haja ética e que isso não fira a integridade moral e física de ninguém. Além disso, nesse caso, os mesmos devem ter consciência que legiões de pessoas são seus fãs e, usualmente, reproduzem suas atitudes. 

Tal burburinho desperta o interesse de falar não exatamente sobre a utilização da pele de animais no mundo fashion, mas das formas de sua obtenção, produção e comercialização nas lojas. Durante minha pesquisa, encontrei, e assisti, evidentemente, o documentário Earthlings (Terráqueos, em inglês). A produção mostra a realidade, de forma nua e crua, das brutalidades as quais os animais são submetidos em benefício do lucro, da ciência e do luxo e vaidade humana. 

Ative-me a “Parte Três: Roupas”, que é o que interessa nessa abordagem, e percebi que o animal começa a morrer em vida. Sua sentença de morte foi decretada no seu primeiro dia de existência e até lá sofrerá muita agonia.  

A captura, na maioria dos casos, é feita com artifícios dolorosos e impiedosos, e a outra parte já nasce em cativeiro. Todos viverão o resto de suas vidas manuseados sem a mínima prudência e acondicionados em lugares ínfimos, sem direito à socialização – ou vida selvagem -, ao exercício dos seus instintos e, principalmente, à liberdade, levando-os a consequências austeras como a automutilação, problemas mentais e até canibalismo. Quando há necessidade de transporte, o sofrimento continua. Amontoados, padecem de desidratação e subnutrição. Muitos desses não aguentam sequer chegar ao abate, momento mais detestável do alcance do sadismo humano. Geralmente, os métodos mais baratos também são os mais cruéis. Muitos são mortos por eletrocussão, outros têm partes vitais cortadas, quando sangram até o último suspiro de vida, e até esfolados quando ainda vivos são.

"Aqui está o resto do seu casaco de pele", campanha da PETA
No vídeo abaixo, você pode ver uma pequena “demonstração”, de apenas um minuto, de barbaridades cometidas contra animais em prol do comércio de peles na China. As cenas fazem parte do documentário citado anteriormente. AVISO: O conteúdo a seguir contém imagens fortes.


Temos tecnologias suficientemente desenvolvidas para produzir tecidos sintéticos, de alta qualidade e aparência idêntica à realidade. Não somos mais homens da caverna que há milhares de anos usavam pele de animais para se aquecer no frio, o que se fazia necessário para sua sobrevivência. Não temos mais esta necessidade, nem precisamos matá-los apenas para ostentar uma bela e cara peça de moda no armário ou desfilar nossa arrogância como animal supremo e dominante. Assim como nós, seres humanos, os animais nasceram com o direito de viver livre de qualquer atrocidade e nós, seres humanos – novamente – com o dever de manter esse direito íntegro. 


Quanto vale sua responsabilidade social?

Foto tirada de um exemplar da Folha de Pernambuco, contendo o anúncio do Fórum Permanente Pernambucano Pró-Vida, que equipara o “homossexualismo” a um crime sexual

Essa segunda-feira, 03 de setembro, acordou como mais uma manhã tranquila em Pernambuco. Alguns foram ao trabalho, outros para a escola, outros ainda, como de costume, passaram na banca mais próxima e compraram o jornal. Houve quem escolheu comprar a Folha de Pernambuco, um dos jornais mais lidos do estado. Houve também quem, atento, reparou numa das propagandas daquele exemplar, especificamente o anúncio do Fórum Permanente Pernambucano Pró-Vida, contendo o slogan, “Pernambuco não te quer”, fazendo referência a diversos crimes sexuais, como exploração sexual de menores e pedofilia. Mas, curiosamente inserido entre esses delitos, estava o termo “homossexualismo”. Uma foto feita do controverso anúncio foi tirada e publicada no Facebook na tarde daquele mesmo dia, mas só na manhã do dia seguinte ela ganhou reconhecimento nacional, sendo compartilhada por mais de 4.500 pessoas (até o fechamento dessa matéria), cada uma demonstrando, a seu modo, indignação com o ocorrido.
Ante a talvez inesperada mobilização social em torno do infeliz incidente, a Folha de Pernambuco, que estava ignorando o assunto, publicou em sua página no Facebook a seguinte nota:

Aparentemente, dentro desse “diálogo constante”, a comunidade LGBT não foi consultada sobre a venda ou não de um espaço pró-homofobia
Diante dessa tentativa frustrada de se reconciliar com o público, diversas pessoas responderam à nota, atestando o óbvio indefensável:

Indignação e revolta nas redes sociais levam dezenas de pessoas a compartilharem frases de reprovação da campanha do Pró-Vida e denunciarem o FPPPV, a Folha de Pernambuco e o Diário de Pernambuco
Episódios como ataques de “institutos cristãos” à população LGBT são comuns – é possível até dizer que há uma verdadeira batalha cibernética entre religiosos e militantes dos direitos dos homossexuais. O que chamou a atenção, e foi a causa de tanto alvoroço, é o modo como um jornal de grande circulação, que se diz isento e neutro (seja política, social ou religiosamente), vende seu espaço valioso para um anúncio de cunho explicitamente preconceituoso. 
Um meio de comunicação atua como formador de opinião, seja pela divulgação da ideologia do estado – e, infelizmente, mesmo quando essa ideologia atenta contra princípios dos direitos humanos, como ocorre claramente em países mais fechados tais quais o Irã e a Coréia do Norte – seja pela difusão de ideais alternativos. Sabemos que o Estado Brasileiro está longe de ser laico como assim diz em sua Carta Magna, mas o país tem dado passos consistentes (embora lentos) na direção de uma realidade mais igualitária para o público LGBT, como a aprovação da união civil entre pessoas do mesmo sexo. A veiculação da campanha da Fundação Pró-Vida, que equipara a homossexualidade a um crime como a pedofilia, dentro de um jornal de grande circulação, é um retrocesso na campanha do Estado Brasileiro por uma sociedade mais justa, e uma explicitação de como a grande mídia no Brasil, que deveria servir ao público, ainda atende a interesses privados, chegando à venda de sua importante responsabilidade social por alguns trocados.

Algumas horas depois, mais uma tentativa de desculpas da Folha de Pernambuco. Não seria melhor promover uma campanha anti-homofobia nas mesmas páginas que antes promoveram o preconceito?

O jornal Diário de Pernambuco também cedeu espaço para o anúncio do Fórum Permanente Pernambucano Pró-Vida, mas, até o fechamento dessa matéria, não havia se pronunciado a respeito. Não custa relembrar que, no dia 04/06/2011, segundo o site do Pró-Vida, o mesmo jornal divulgou um texto intitulado “O Movimento da Serpente”, alertando sobre as armadilhas do “homossexualismo”. O texto pode ser lido aqui

A página do Pró-Vida no Facebook recebeu tantas denúncias depois do ocorrido que se encontra fora do ar. Vale lembrar que o candidato do PSB (partido do governo do estado) à prefeitura de Recife, Geraldo Julio, é apoiado pelo FPPPV, que lidera uma campanha nomeada “A Vida depende do Seu Voto”. Uma pesquisa divulgada ontem mostra que o candidato está na liderança da corrida eleitoral, com 33% das intenções de voto, seguido de Humberto Costa, do PT, com 25%.
O que esperar de Geraldo Julio se ele for eleito? Devemos nos preparar para mais anúncios como esse?
O Fórum Permanente Pernambucano Pró-Vida é homofóbico, é, infelizmente, amparado pela lei que ainda garante essa vertente de liberdade de expressão. A Folha e o Diário de Pernambuco não são homofóbicos, mas hoje promoveram reflexões importantes sobre o quanto a sociedade pode ser influenciada e manipulada por interesses financeiros.


segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Educação que não rima com Brasil

Foto: http://www.flickr.com/photos/dvdgmz/
A situação é a seguinte: Professor de escola pública quer voltar aos seus 18 anos e escolher outra profissão. O motivo todos devem imaginar: entrar numa sala de aula onde nenhum (leia “nenhum” em uníssono) respeito permeia o ambiente de ensino é a queixa nas preces de cada dia de algum professor que não nomeemos com letras, números para sermos mais práticos. No Brasil o governo enxerga mais o professor através de números e estatísticas - que são artificialmente positivas – da educação.

Se a realidade do ensino público é degradante, a do ensino privado certamente também o é. Só que nesse caso, claro que excluindo os que não dispõem mais do que o básico para SOBREVIVER, os cursos de línguas, as viagens e os passeios de cada final de semana dão a borda do recheio nas aulas chatas e tediosas ou nas faltas dos professores e do alunado. 


No país do Jesus Cristo posto caprichosamente nas paredes das repartições públicas, o ensino religioso, disfarçadamente ou não católico, é mais uma barreira a enfrentar na construção da compreensão de uma tolerância e respeito universal para com o semelhante. Já que à medida que você direciona o pensamento teológico em uma única religião e não apresenta outras ,que são tanto quanto sagradas, a intolerância cresce como fera na espreita para o ataque.

O resultado disso é a perda de potenciais mentes das quais poderiam contribuir para o avanço da pátria amada. Educação como base é clichê que deixou de ser ação há muito para ficar cristalizada nos discursos da comunidade acadêmica e políticos.

Foto: Dani Alvarez Cañellas

Que então esperar? Que professores continuem a se frustrar perante a indisciplina abafada pela diretoria da escola? Que o sistema educacional se afunde em vertigem e que o PIB do país aumente mais e mais? Um patrocínio dos banqueiros estrangeiros para as escolas do governo? Aprendamos a ler para ensinar nossos camaradas!



sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Vale do Amanhecer

Salve Deus! É assim que sou recepcionada ao chegar a Planaltina, no Distrito Federal. Em minha mente estavam templos e pessoas simples, mas no lugar disso encontrei uma paisagem com cores vibrantes, vestimentas pouco habituais e elementos de várias religiões. Meu pensamento era só um: Não estou entendendo nada. E durou até que os ‘recepcionistas’ - assim são chamados aqueles que não cobram nada para a realização do trabalho por haver uma razão - vieram até o nosso grupo. O vale do amanhecer é uma doutrina espiritualista cristã criada para abrigar a doutrina do amanhecer, fundada em 1959, por Neiva Chaves Zelaya ou popularmente chamada ‘Tia Neiva’. 

Tia Neiva, aos 22 anos e com quatro filhos para criar após ficar viúva, viu a necessidade de tornar-se caminhoneira- a primeira mulher com habilitação profissional concedida no Brasil- e começou a transportar cargas. Estava com 32 anos quando sua mediunidade se abriu, mostrando sua clarividência. Começou a ter visões e contatos com entidades espirituais e a partir desses contatos veio a missão de trazer libertação para a humanidade. Passou por uma penosa aceitação de três anos, pois teve uma formação familiar rigorosamente católica. Podia ver e conversar com seres de outras dimensões e de planos inferiores e superiores, além de realizar transportes e desdobramentos, o que permitiu que fizesse um curso no Tibet com o mestre Humarram sem que seu corpo físico se deslocasse do Vale do Amanhecer. 
A doutrina do amanhecer foi trazida a partir da clarividente pelo espírito de Francisco de Assis, conhecido nessa doutrina como Pai Seta Branca, o representante máximo da crença. Em 1957, de acordo com os adeptos, Tia Neiva viu um cacique enfeitado com plumas brancas, falando espanhol que se identificou como Pai Seta Branca. Em uma grande missão a escolheu como sua substituta na criação de uma doutrina que através da cura espiritual iria preparar a humanidade para a o terceiro milênio, época em que não existiriam dor nem sofrimento.


 Em visita a um dos templos, o Adjunto Paulo Roberto (um dos recepcionistas) nos ensina que os três pilares são: humildade, amor e caridade. ‘’Humilde e não humilhado’’, afirma. Quando perguntado sobre a visão que tem sobre a homossexualidade explica que os espíritos não têm sexo, pois se o sexo fosse determinado, os espíritos não saberiam o que cada um sente, e também por trazerem na bagagem os sentimentos de vida passadas. Na doutrina não é permitido julgar, discriminar e criticar. Outro questionamento é em relação às despesas para manter os templos ‘’quem tem tira do bolso, quem não tem contribui com vibrações’’.  
 Um dos costumes é tratar uns aos outros como irmãos. As ninfas estão sempre bem vestidas e maquiadas de acordo com a doutrina, mas passando o portão vestem-se de maneira ‘’normal’’. As cores das roupas também têm seu significado, a dos recepcionistas, por exemplo: Calça marrom em memória de São Francisco de Assis, a camisa preta em memória a uma encarnação da idade média - um jaguar que foi uma triste passagem que tiveram- o colete para identificar a evolução interna da doutrina, também chamado de escudo, faz com que se sintam protegidos.


Ao escutar a gravação de uma das entrevistas de Tia Neiva um pouco antes do seu falecimento, em 1985, ela deixa a seguinte mensagem ‘’ Eu não gosto de generalizar a minha missão como cura, eu gosto da doutrina, minha missão não é curar o corpo, afinal a medicina está tão avançada. Minha missão é curar o espírito, a alma, como eu faço... Quantas mil pessoas já passaram por aqui?’’. 
Um caso que ficou marcado para ela: Três menininhos queriam algo e a mãe resolveu que iriam guardar o dinheiro para irem ao Vale, pois queria que o pai deles parasse de beber ‘’Eu já senti, desde que estavam na fila o que seria e o internei. Este homem estava com 36 anos e hoje é um grande doutrinador. O homem doente tem mil médicos, especialistas, quero ver o que está sem saber o que fazer da vida. Pessoas vem buscar amor, não se realizam se não tiver amor no coração. O homem tem a humildade em dizer : Eu acredito em Deus acima de todas as coisas! Se ele tiver a humildade de dizer isso eu estou feliz. Este é meu evangelho’’. 
Salve Deus: Jesus está contigo! 




domingo, 15 de julho de 2012

Opinião: Cultura escrita com C, de Classe



No Brasil de 2012 já se torna clichê falar de “Classe C”, terminologia que vem se tornando muito mais do que uma forma de designar a classe média emergente brasileira, que consolida-se a cada dia com movimento social, que não pode mais ser contido na ideia de “classe econômica”, somente. É inegável, a influência que esse boom socio-econômico na vida de uma grande parcela da população brasileira tem exercido sobre os meios televisivos do país e suas grades de programação. A “nova” classe representa 54% da população brasileira, cujo poder de compra movimenta a publicidade e a televisão no sentido de atingir esse consumidor, daí a grande investida em direcionar a programação ao popular, embora o fator econômico não seja o único.
Programas e novelas com temas populares sempre existiram na televisão brasileira, mesmo que em menor escala e de forma mais discreta. A figura de Chacrinha, por exemplo, é emblemática na TV popular, bem como a de Regina Casé, que protagonizou tantos programas “Classe C”, entre eles o popularíssimo “Esquenta!”, do qual ainda falaremos; A Grande Família, no ar há dez anos, representa com humor o cotidiano da classe C. Os programas de auditório comandados por Silvio Santos, Fausto Silva e Gugu Liberato também são exemplos claros.
Chacrinha  e A Grande Família Fonte: Google Images
A programação popular já existia, mas o subúrbio e as comunidades de baixa renda sempre foram retratadas de forma secundária ou fazendo parte dos núcleos cômicos, nunca das tramas dramáticas e principais das novelas, por exemplo. Isto vem mudando nos últimos anos, a exemplo de: Senhora do Destino (2004), em que a protagonista era uma emergente nordestina que sobe na vida, mas fica no subúrbio; Duas Caras (2007), em que Juvenal Antena é o fundador de uma favela onde não há traficantes, só trabalhadores; Fina Estampa (2011), na qual a personagem de Lilia Cabral ganha na loteria, mas não abandona o subúrbio.
A bola da vez são as novelas das 19h e das 21h da Globo: Cheias de Charme e Avenida Brasil já se consolidaram como sucessos de audiência, trazendo tramas que se passam em subúrbios e comunidades, e contam as histórias da Classe C de forma inédita. Na primeira, as personagens principais são um trio de empregadas que se tornam cantoras profissionais e estouram como sucesso nacional, rodeadas por personagens musicais como Fabian (Ricardo Tozzi) e Chayene (Cláudia Abreu), inspirados em cantores do universo tecnobrega e sertanejo atual.
As Empreguetes. Leandra Leal, Isabelle Drummond e Taís Araújo em Cheias de Charme. Fonte: Globo
Avenida Brasil, de João Emanuel Carneiro, vai mais profundo em seu mergulho na vida suburbana: desde à abertura, com a música “Vem dançar Kuduro”, ao palco principal da trama, o Divno, à inversão do núcleo cômico da novela do subúrbio para a elite (a exemplo da personagem Cadinho ), a forma como a novela é filmada e como se diz o texto (por vezes ouve-se burburinhos, vozes se sobrepõem), a trilha sonora, a composição dos cenários; tudo se volta para o popular, de maneira inteligente. A personagem principal, vivida por Débora Falabella, abandonada num lixão quando criança, volta disfarçada para se vingar dos que lhe prejudicaram, e a partir daí a trama se constrói de maneira ágil, sem enrolações, sem noções maniqueístas, com personagens que passeiam entre o bem e o mal, anti-heróis, pessoas comuns. O ambiente de fundo, composto pelo salão de beleza, os  jogadores de futebol, a figura da “periguete”, encarnada por Isis Valverde, são mais provas de que esta não é uma novela que abriga alguns personagens populares, somente, mas encarna e representa a cultura, valores e o universo da Classe C.
Fonte: Veja
O já citado programa Esquenta!, idealizado e comandado por Regina Casé, é o retrato último e sem preconceitos da classe emergente; vai ao ar por temporadas, aos domingos,  e é bem como um almoço de domingo na laje: uma festa, uma reunião de amigos, uma roda de samba e pagode. Formato não-convencional, participações inesperadas, convidados super populares e que intervém quando desejam,  uma platéia que parece ser genuína, e que segundo a própria Regina Casé em entrevista a Meio & Mensagem “não tem modelos contratadas na primeira fila”, mas tem uma capacidade de tratar dos mais diversos e complexos assuntos com leveza e humor, como poucos na tv aberta fazem. É o Brasil se assumindo periférico, suburbano,  popular e divertido sem breguice e afetação, invadindo a programação de uma emissora supostamente tradicional, tal qual a Classe C vem tomando o país.
Essa “nova” classe é forte representante de uma cultura genuinamente brasileira, e a emergência sócio-econômica do grupo provocou mudanças  na mentalidade dessa porção da população, pricipalmente com relação ao lugar que tem conquistado na sociedade. A televisão capta essa mentalidade, deixando de lado as “Helenas” de Manoel Carlos e enfatizando as “Marias”, de Cheias de Charme, retirando a classe C do papel de coadjuvante e colocando-na como protagonista de sua programação. Seja na novela das “empreguetes”, com a dinâmica patroa-empregada sendo posta à prova, ou em Avenida Brasil, onde o caráter e a frieza humanas são complexamente explorados, sem medo do popular, o que há de novo na televisão brasileira é a forma como a história do pobre que está vencendo  na vida é valorizada, de forma despretensiosa e sem esteriótipos; a mídia dá lugar à uma nova cultura, escrita com C, de Classe.



terça-feira, 10 de julho de 2012

Opinião: Um cineasta com a febre do rato

Cláudio Assis recebe prêmio em Paulínia (Foto: Aline Arruda/Agência Foto)

Cláudio Assis sempre foi polêmico, característica que se reflete diretamente em sua curta filmografia. “Amarelo Manga” e “Baixio das Bestas”, os dois primeiros longas do diretor, são retratos crus e cruéis do que há de pior na desgastada sociedade brasileira contemporânea, da violência latente ao sexo brutal, focando a exploração da miséria e angústia humanas. Não são filmes fáceis de assistir, mas é uma realidade que não pode ser ignorada.
Ignorar Cláudio Assis também não é recomendado, pois se ele não possui papas na língua é porque tem a coragem (ou loucura) de dizer o que muita gente não tem por conta das convenções e fachadas sociais que cobrem os bastidores do cinema. O cineasta, que está lançando seu novo filme, “Febre do Rato”, deu diversas declarações ousadas em entrevistas e sessões de pré-estreia do último trabalho. 
Cena de “Febre do Rato”, no filme de Cláudio Assis.
 A expressão designa figurativamente uma pessoa que está fora de controle, assim como o cineasta.

Ao portal de notícias G1, Cláudio afirmou que o “cinema brasileiro é feito por babacas”. Disse ainda que é um poeta que faz poesia com seus filmes, e que violência é permitir que um filme como “E aí... Comeu?” seja divulgado a nível nacional. “É isso que está educando a sociedade? Isso é nojeira, excrescência, escraviza o olhar”. O diretor clama por mais atenção ao cinema periférico de regiões como Ceará e Pernambuco, onde, segundo ele, se produz filmes de qualidade.
O ataque não foi somente ao nicho comercial do cinema brasileiro. Na pré-estreia de “Febre do Rato”, no Rio de Janeiro, antes do filme começar, Cláudio declarou que faz “cinema com verdade, com tesão, com vontade”, acrescentando que Walter Salles “escraviza o olhar”. Finalizou declarando que “posso errar, mas com o orgulho de saber que meu filho vai sempre saber que não sou um vendido”, afirmando sua posição contra produções que visam ao lucro ou ao acúmulo de prêmios. Salles esteve em Cannes no mês de maio para a estreia de “Na Estrada”, produção estadunidense que contava com Kristen Stewart, da Saga Crepúsculo, no elenco.

Walter Salles e Kristen Stewart na première de “Na Estrada” em Cannes 
(Foto: Jean Paul Pelissier/Reuters)

Alguns podem pensar que tais declarações são uma forma de ganhar publicidade para si. Talvez sejam, afinal, é difícil por um filme de Cláudio Assis na tela. Foram quatro anos entre “Baixio das Bestas” e o final da produção de “Febre do Rato”, e mais dois anos para que este pudesse ser lançado, mesmo assim em apenas três salas no Brasil. Com um estilo tão autoral e difícil, é claro que Assis não quer fazer cinema pra vender, como já declarou antes, mas isso não quer dizer que ele não queira ser visto, muito ao contrário.  “Se esse filme der certo, vai ter uma explosão de cinema neste país. Quero muito que as pessoas vejam, se interessem. É um filme libertário”, disse ele, em entrevista ao G1. Há uma clara vontade de mudança partindo de Cláudio.
Falas como as de Cláudio Assis podem até ser descabidas, mas são necessárias no despertar de uma consciência inerte no brasileiro, que costuma dar prioridade, dentro do espectro nacional, a produções vazias e vendáveis como “Se eu Fosse Você” e “Cilada.com”. Claro que não se pode esperar mais de filmes como esses além do intuito de entreter e divertir, mas há certa “escravização do olhar” quando se dá ampla margem de divulgação a um tipo de cinema como esse em detrimento de outro. É uma alienação e, como tal, deve ser combatida para que haja uma democratização na produção cinematográfica nacional. Assim, quem sabe, veremos a utopia pedagógica do crítico francês André Bazin, que queria ver o “público comum” sensibilizado com os “filmes de arte”, exigindo obras cada vez mais profundas e melhorando a média de produção de conteúdo fílmico. Hoje, infelizmente, esse público parece passar longe de filmes como “Febre do Rato”.



segunda-feira, 2 de julho de 2012

Opinião: Rio+20: O Futuro Que Nós Criamos



Vinte anos após a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, conhecida como Eco 92,  líderes e sociedade ao redor do mundo voltaram seus olhos e esforços em direção ao Rio de Janeiro mais uma vez, do dia 13 a 22 de Junho deste ano, visando resgatar aquilo que foi acertado na conferência de 92, ponderando sobre os avanços e regressos no sentido do Desenvolvimento Sustentável, conceito hoje mundialmente utilizado e discutido, e uma das mais importantes consequências da Eco 92. Em face dos avanços que sucederam a conferência nos últimos vintes anos, grandes expectativas se formaram ao redor deste evento, a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, chamada Rio+20 em alusão aos vinte anos decorridos da Rio 92.

A Rio+20 teve como objetivo definir a agenda do desenvolvimento sustentável para as próximas décadas, assegurando o comprometimento político com o mesmo, buscando avaliar resultados já alcançados, bem como abordar problemas emergentes. Os principais temas tratados na conferência foram a “economia verde no contexto do desenvolvimento sustentável e da erradicação da pobreza, e a estrutura institucional para o desenvolvimento sustentável”, vistos como assuntos de urgência, os quais abarcam debates como o gerenciamento de recursos aquáticos e alimentícios, a busca por energias limpas, o combate à fome e à miséria, e as mudanças climáticas no planeta.

Diante da gravidade e complexidade dos assuntos tratados, e da polêmica em volta dos resultados imediatos da conferência, como estabelecer o nível de realização proporcionado pela Rio+20 naquilo que o evento se propôs a ser? Questiona-se a força e ousadia do documento produzido pelos líderes da ONU, assinado e aprovado pelos chefes de Estado e representantes ali presentes, entitulado “O Futuro que Nós Queremos”. O documento se aproxima das problemáticas apresentadas e é mais focado em exortar os países-membros da ONU a realizar mais na direção do Desenvolvimento Sustentável, mas efetivamente não estabelece soluções e políticas de ação para tal, não há recomendação para se acabar com os subsídios aos combustíveis fósseis nem o estabelecimento dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, por exemplo.

Uma onda de críticas se levantou frente ao documento e ao evento em geral, principalmente com relação à falta de ousadia e vontade política. Uma carta em protesto, chamada “A Rio+20 que não queremos” foi assinada por personalidades do meio ambiental mundial, demonstrando insatisfação  diante do que foi decidido. A carta diz que “O documento intitulado O Futuro que Queremos é fraco e está muito aquém do espírito e dos avanços conquistados nestes últimos 20 anos,[...] e da importância e da urgência dos temas abordados, pois simplesmente lançar uma frágil e genérica agenda de futuras negociações não assegura resultados concretos.” E ainda: “A Rio+20 passará para a história como uma Conferência da ONU que ofereceu à sociedade mundial um texto marcado por graves omissões que comprometem preservação e a capacidade de recuperação socioambiental do planeta”.

O que não se pode ignorar, porém, com relação à Rio+20, principalmente em comparação com a Eco 92, foi a grande participação da sociedade civil; ONGs, empresas multinacionais, universidades, grupos científicos e de apoio a pesquisas nacionais e internacionais participaram de mais de mil eventos culturais e científicos, alguns deles não só marcando presença, mas mostrando comprometimento através da apresentação de diretrizes concretas, como o incentivo a novas tecnologias e energias limpas. O alerta e conscientização da sociedade brasileira para os problemas relacionados ao atual sistema de produção e consumo resultou em sucesso e a quantidade de eventos paralelos, bem como a grande mobilização popular surtirão efeito positivo na adoção de planejamentos ambientais aceitáveis no país.

Ainda é cedo para declarar completamente o sucesso ou o fracasso da Rio+20, e qualquer das duas afirmações seria ingênua e extremista. “O futuro que nós queremos” é inegavelmente vago e seus 128 parágrafos soam como uma promessa bonita, mas vazia. É reconfortante e encorajador, porém, pensar que apesar de a reunião de grandes líderes mundiais não ter produzido resultados concretos, a mobilização do cidadão comum se afirmou como a expressão mais viva da esperança na capacidade da humanidade para enfrentar o desafio da inclusão e do Desenvolvimento Sustentável no sentido econômico, ambiental e social. Na Rio+20 a mudança para forjar “O Futuro que Nós Queremos” não se efetivou nas grandes mesas de negociações, mas nas mentes e ações de cada cidadão disposto a batalhar por um futuro sustentável, criado por ele mesmo.






Opinião: Encontro com o quê?



Desde o dia 1 de dezembro de 2011, quando, numa coletiva de imprensa, a TV Globo anunciou que Fátima Bernardes deixaria o “Jornal Nacional” para apresentar um novo programa, boa parte dos telespectadores brasileiros geraram expectativas sobre qual seria o resultado de uma empreitada tão arriscada. A jornalista esteve por 14 anos no comando do telejornal, ao lado de seu marido, William Bonner, o que já era considerado um status a mais para a atração, uma representação de valores familiares na televisão, elevando os dois ao nível de celebridades nacionais. Provavelmente essa característica, aliada à sempre aparente simpatia de Fátima, tenha encorajado a emissora a apostar nela como cabeça de um programa onde ela, em suas qualidades, pudesse ser mais bem aproveitada.
Seis meses de “gestação” se passaram até que o “Encontro com Fátima Bernardes” saísse do papel e entrasse na tela da TV, no dia 25 de junho. A realidade, no entanto, mostrou-se mais amarga do que as previsões. “Encontro...” estreou com pico de 11,5 pontos de audiência no Ibope (a projeção da Globo era de 15 pontos), e ainda caiu ao longo da semana: na terça (26), foram 7,2 pontos; na quarta, 6,3; na quinta, 5,6 pontos de média e na sexta, 5,4. O programa infantil do SBT, “Bom Dia & Cia.”, permaneceu na liderança da audiência a maior parte da semana, sempre com mais de sete pontos no Ibope.

Cenário tecnológico de ficção científica é a casa onde Fátima encontra seus convidados. A preocupação maior é mostrar a projeção visual criada pelo setor de arte da Globo, mesmo tendo que esconder os convidados.

Aparentemente, o telespectador ficou curioso com o que poderia sair do novo programa de Fátima Bernardes, mas preferiu não rever o que foi apresentado na estreia: um cenário de gosto questionável, uma atmosfera familiar batida, que a TV Globo não cansa de fortalecer, e uma apresentadora perdida entre várias pautas completamente diferentes. Se, em determinados momentos, alguns depoimentos beiravam o tédio de tão longos e inconclusivos, em outros era necessário correr contra o relógio para conseguir realizar o cronograma sem estourar o tempo. Faltou ritmo, e isso se fez notável para quem estava assistindo. A prova é que uma enxurrada de críticas correu a internet. Logo no dia de estreia do programa, as tags “Fátima Bernardes” e #EncontroComFatimaBernardes figuraram entre os Trending Topics brasileiros do Twitter, mas não de uma forma positiva, como se pode ver abaixo.

De fato, “Encontro...” mais parece um desencontro. Propõe-se a ter um tema semanal definido (nessa primeira semana foi escolhida a séria, porém insossa pauta sobre adoção), mas não dedica a ele sequer um terço do tempo da atração, desperdiçada com futilidades que vão do design de unhas caríssimo de madames da zona sul do Rio de Janeiro a como dobrar uma camiseta em poucos movimentos. Aliás, a abordagem superficial dada a assuntos relevantes dentro do programa contribui para uma banalização geral: quem se importa se os índios da região Norte do país estão sem terras, sofrendo violência física e passando fome quando, dentro de trinta segundos, descobriremos qual é o maior sonho dos convidados do dia? Se a atração matutina não flui e soa esquizofrênica, isso certamente se reflete no público-alvo, que ainda é uma incógnita. Talvez pessoas que não tenham o que fazer às 10h40 da manhã se identifiquem.
Um encontro com muita simpatia e pouco foco.

Provavelmente, a maior ausência do “Encontro com Fátima Bernardes” é ousadia. A Globo, acostumada a ficar dentro de sua zona de conforto, criou um programa fraco, com tons de politicamente correto e família branca-heterossexual-classe média nada impressionante. A intenção era fazer algo parecido com o “The Oprah Winfrey Show”, o talk-show de maior audiência da história da TV estadunidense? Faltaram dois ingredientes: localização temporal e espacial, afinal, a atração não surgiu ao acaso e nem gratuitamente. Oprah era uma apresentadora negra num Estados Unidos em que a segregação racial ainda era um tema delicado e as mulheres, bem como no resto do mundo, não possuíam muito espaço. Sua própria existência era uma polêmica. Já a maior polêmica de “Encontro...” foi falar de depilação masculina. Esperamos que esse seja só um mau começo.



 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | Best WordPress Themes